Sobre Mamadeiras e chupetas – Dra. Ana Julia Colameo para a revista do IDEC

 

*Você pode explicar brevemente por que a mamadeira e a chupeta atrapalham a amamentação? *Ambas deveriam ser evitadas a todo custo? Ou há casos em que acabam sendo recomendadas ou aceitas?

Sim, os bebês geralmente não necessitam de toda a parafernália que é promovida e comercializada para seu sustento, saúde e conforto.

Em 2002 a Organização Mundial da Saúde e o UNICEF lançaram a  “Estratégia Global para Alimentação de Lactentes e Crianças Pequenas (EG)” como resultado de um amplo processo participativo de dois anos, com o objetivo de elaborar um plano de abrangência mundial que combatesse a desnutrição infantil e suas nefastas conseqüências e que contribuísse para a redução duradoura da pobreza e da privação.

A EG dá ênfase ao conceito de que mães e bebês formam uma “unidade biológica e social”, isto é, um complexo interativo de dois indivíduos, onde ambos saem ganhando se a unidade permanece íntegra ou perdendo se ela é desfeita. Portanto, a saúde e bem estar do bebê depende da saúde e do bem estar da mãe. E por muito tempo, anos, até que o filho se torne um indivíduo independente.

A amamentação envolve esse conceito de “unidade biológica e social”. Tudo que vier a dificultar ou a impedir essa prática, fará com que mãe e bebê saiam perdendo.

Hoje, é de conhecimento geral que a “alimentação ótima” para as crianças pequenas envolve todos esses tópicos:

– Iniciar a amamentação na primeira hora de vida.

– Amamentar exclusivamente no peito até os seis meses de idade.

– Introduzir alimentos locais, seguros, saudáveis e apropriados a partir dos seis meses.

– Continuar amamentando até os dois anos ou mais.

Para atingir o padrão de “alimentação ótima para lactentes e crianças pequenas” é necessário que o governo regule as atividades de empresas que façam promoções comerciais de produtos que possam vir a prejudicar a amamentação e a alimentação complementar apropriada.

No Brasil temos em vigor a Lei 11.265/06 e as Resoluções da ANVISA compondo a legislação de proteção da alimentação das crianças de primeira infância.

A partir desses conceitos vou tentar responder as suas questões:

Mamadeiras ensinam os bebês a “chupar” usando predominantemente os músculos das bochechas e de abertura da mandíbula para sugar o leite por meio do vácuo. A língua fica no fundo da boca controlando o excesso de fluxo de leite, para evitar engasgos.

Chupetas ensinam os bebes a “mascar”, fortalecendo a musculatura de fechamento da mandíbula e empurrando a língua para o fundo da boca.

Esses “treinos” atrapalham a amamentação, porque para retirar leite da mama, a língua do bebê faz movimentos de ordenha, abraçando a aréola e mamilo, com a ponta sobre o osso da mandíbula. Durante as mamadas, a boca fica bem aberta, com bochechas relaxadas.

Os bebês que recebem mamadeiras ou chupetas acabam por treinar erradamente a musculatura da boca e quando vão mamar no peito ”mascam” a mama, tornando a amamentação bastante dolorosa e não conseguindo retirar leite. A isso se dá o nome de ”pega incorreta” ou ”confusão de bicos”.

Quando a amamentação é prejudicada, o risco de adoecimento do bebê aumenta cerca de 68 vezes. O risco de morte por diarreia aumenta cerca de 14 vezes e por pneumonia, cerca de 4 vezes. Também a mãe fica mais exposta a desenvolver anemias, câncer de mamas e de ovário, doenças vasculares, diabetes, artrite reumatoide, fratura de quadril e osteoporose na 3ª idade.

Além de prejudicar a amamentação as mamadeiras e chupetas são muito difíceis de limpar. Devem ser esterilizadas a cada uso, o que é quase impossível no caso das chupetas.

Nas mamadeiras, o leite não pode ser mantido por mais que uma hora, pois o risco de contaminação aumenta muito. E ela deve ser lavada imediatamente após o uso, para evitar que as bactérias façam colônias no frasco.

Também é importante lembrar que ambas produzem alterações na arcada dentária e na cavidade nasal, causando prejuízos à saúde a longo prazo, que vão desde a má oclusão dentária, amidalites de repetição, rinites e  sinusites, até problemas respiratórios mais graves na vida adulta como a síndrome do respirador bucal, alem do risco de morrer por asfixia e infecções.

Portanto, olhando o panorama de efeitos sobre a saúde em curto e em longo prazo, olhando o risco aumentado de morte por infecções e o risco de asfixia, penso que  nunca há indicação do uso de mamadeiras ou chupetas.

 

*Algumas mamadeiras contém a substância BPA, que pode ser tóxica. Como está a oferta de mamadeiras sem BPA no Brasil, você sabe?  A resolução da Anvisa proibindo comercialização de mamadeiras com BPA está de pé? Você sabe se ela é respeitada?

Mamadeiras que contem BPA devem ser banidas do território nacional segundo a legislação vigente. (ANVISA.RDC No- 41/11). Infelizmente não há legislação similar para as chupetas e mamadeiras. A vigilância constante para que esses produtos não sejam comercializados no Brasil é importante e deve ser um item na fiscalização das VISAS municipais. Pais e mães que adquirirem inadvertidamente esse tipo de produto podem pedir indenização pelas vias legais.

Em relação às ofertas de mamadeiras e chupetas, toda promoção comercial inclusive as ofertas, são proibidas pela Lei 11265 e Resoluções da ANVISA.

 

*Como está a oferta de mamadeiras de vidro no Brasil? Elas são melhores que as de plástico? Não são muito pesadas para a criança?

Mamadeiras de plástico ou de vidro nunca são boas, portanto não há melhor. Existe a fantasia de que dar o leite por meio de mamadeira facilita a refeição láctea. No entanto os cuidados na alimentação com mamadeiras devem ser redobrados. Bebês não devem receber mamadeiras das mãos de crianças pela falta de atenção e de responsabilidade própria dessa idade. O adulto não deve obrigar o bebê a receber toda a refeição colocada no frasco,  nem reaproveitar o resto algum tempo depois. Crianças nunca podem ser deixadas sozinhas com mamadeiras. Quando é pequenina, ela corre o risco de se asfixiar, caso engasgue sem socorro. Quando começa a se locomover, ela corre o risco de se acidentar, se estiver com a mamadeira na boca ou nas mãos. Os acidentes com mamadeiras de vidro costumam ser mais perigosos que as de plástico. Os acidentes com mamadeiras de plástico são mais freqüentes que com as de vidro.

Vivemos numa cultura permeada por chupetas e mamadeiras. Somente há poucos anos as chupetas e mamadeiras foram regulamentadas. Ainda é possível encontrar “baleiros” recheados de chupetas, soltas, sem rotulo ou embalagem, nas pequenas vendas e farmácias, assim como mamadeiras sem marca ou embalagem, nas lojas chamadas de “Um e noventa e nove”.

Os profissionais de saúde em geral não percebem os riscos das mamadeiras porque não foram ensinados a limpá-las, prepará-las ou a calcular o tempo que elas mantém-se seguras. Dificilmente eles visitam a casa de seus pacientes e observam se o preparo, limpeza e manutenção das mamadeiras é apropriado.

As empresas produtoras desses artefatos nunca mencionam os riscos reais, as falhas, os acidentes ou as conseqüências do uso desses produtos, além do que a Lei 11265 estritamente obriga.

 

*Mesmo não sendo recomendado, o que parece é que todo mundo dá mamadeiras e chupetas para seus bebês. Por que isso acontece?

A mídia em geral tem uma grande parcela na responsabilidade da “Cultura da Mamadeira e Chupetas” porque mantem viva a associação “Criança+Chupeta” e “Criança+Mamadeira” na mente das pessoas,  apesar da proibição da propaganda desses produtos. Veiculam “reportagens” em programas femininos sobre a manufatura desses objetos, editam notícias acompanhadas de imagens de bebês usando mamadeiras e chupetas, idealizam seu uso nas novelas, “glamourizam” bebês mascando chupetas ou usando mamadeiras, entre tantos outros artifícios que mantem seu uso sempre “no ar”.

A Internet, por sua vez, tem sido palco de promoções relâmpago de chupetas e mamadeiras e da veiculação de vários sites que indicam o seu  uso. Esse mar turbulento de informações conflitantes impede a noção exata do risco do uso desses produtos.

 

 *Você tem alguma dica para contornar isso?

Uma alternativa segura para a alimentação dos bebês é indiscutivelmente a amamentação. E quando é necessário alimentar bebês e crianças pequenas com qualquer líquido, o uso de copo ou xícara, comum, transparente, é muito mais seguro. São fáceis de lavar, passiveis de esterilizar com água fervente e exigem a supervisão de um adulto durante todo o processo da alimentação.

 

 

5 Comentários

  1. Como tirar a chupeta de um bebe de 3 meses sem causar traumas?

    • Não tem isso de trauma mamãe. Retire a chupeta o quanto antes que ele volta para o peito. É difícil, ele vai chorar e as noites são difíceis, mas os benefícios são maiores. Leve ele para dormir com vc. Asssim que ele der os primeiros sinais de fome ofereça o pepê. Boa sorte.

      • Pois é, Anne… chupeta e tetê não combinam mesmo… e amamentar vale mesmo muito a pena! Beijos!

  2. Olá Fabiana, tudo bem?
    Primeiramente quero parabenizá-la pela qualidade do material informativo. Sou nutricionista e conheço muito bem todas as vantagens do aleitamento materno exclusivo.
    Infelizmente, não é raro vermos mães defendendo o uso da mamadeira e da chupeta por inúmeras questões, inclusive alegando que não as atrapalhou no processo de amamentação.
    Em relação a isso, penso que havendo uma mínima possibilidade de a mamadeira e a chupeta influenciarem negativamente o processo de amamentação de qualquer mãe, esses instrumentos já deveriam ser desaconselhados. Visto que há um grande número de mães que desejam e tentam amamentar, mas por diversos fatores encontram dificuldades e não o fazem. Se sentindo frustrada e culpadas.
    Mais lamentável ainda, ao meu ver, são os profissionais de saúde, que mesmo conhecendo todos os riscos muito bem descritos aqui em seu texto ainda recomendam o uso desses utensílios a fim de acalmar o bebê, sem ao menos mostrar a mãe que ela pode encontrar outras alternativas.
    No entanto, tenho esperança que hoje, com o auxilio da internet, possamos contribuir para um maior esclarecimento de mães e pais e quebrar essa cultura errônea de que “se eu usei e to viva, então não fará mal ao meu bebê”, pois cada vez mais vemos mães e pais pesquisando e buscando novas alternativas a fim de criar seus filhos com mais segurança.
    Acredito que sem dúvida alguma que somente a informação pode levá-los à esse nível.
    Agradeço, portanto, pelo seu trabalho cuidadoso e orientador, que dá aos pais e mães a possibilidade de refletir sobre questões tão polêmicas quanto essa.
    Em breve, irei inaugurar um canal de comunicação e informação voltado para a saúde do grupo materno infantil. Se chama “Mamães com Ciência” E tratarei de temas como esse.
    Seria um prazer receber a sua visita no .

    No mais, gostaria de lhe chamar atenção para um pequeno erro de digitação que ocorreu na seguinte frase: “E ela deve ser lavada imediatamente após o uso, para evitar que as baterias façam colônias no frasco.” Quando você fala de higienização das mamadeiras. A palavra “bactérias” está mal grafada, mudando o sentido da frase.

    Abraços,
    Sabrina

    • Obrigada Sabrina! Que possamos ajudar cada vez mais!!! Um grande beijo!

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